Eita! Vortemo! Antes tarde do que nunca!
Teve 2 motivos principais pelos quais eu não escrevi no último mês:
O primeiro foi o sucesso do post anterior. O blog teve 100 mil leitores no mês passado. Muita gente aleatória acessou o blog e eu não queria criar expectativas nos leitores de que o blog era só sobre ciência e textos motivacionais inspirados. Por isso, eu deixei a poeira baixar pra poder escrever besteira aqui de novo. :)
O segundo foi falta de tempo (+++), inspiração e assunto. Portanto, vamos colocar as notícias em dia.
Eu tive que me mudar no final de agosto. Meu contrato era de 1 ano na FMEL (casa de estudante) e não podia ser renovado. Foi horrível achar apartamento. Têm cada lugar horrível! Uma senhora alugando quartos pra estudantes desligava a internet sem fio às 10h da noite porque as ondas wifi não deixam ela dormir. ¬¬ A outra tinha 10 gatos. Um outro casal morava em outra cidade, à 30 min de trem de Lausanne. Outras pessoas nem atendiam os celulares, marcavam visita e não apareciam, as agências de imóveis não aceitam estudantes, e muita gente nunca mais dava resposta depois da visita. Até que eu achei um apartamento legal no meio de Lausanne. O aluguel era caro (1,000 francos) e ainda tinha 2 crianças pequenas (2 e 4 anos) na casa. Mas era o que tinha, então eu topei. Pro meu alívio, 2 semanas antes de eu me mudar, recebi um e-mail de outra casa de estudante (Planete Bleue) de que uma pessoa havia desistido do quarto e que eu podia ficar ali se eu quisesse. Foi ótimo já que o aluguel é mais barato. A localização não é ruim também. O que eu não sabia era que a mulher com quem eu ia morar antes me deu a responsabilidade de achar outra pessoa pra ficar no meu lugar na casa com as duas crianças, sob pena de ter que pagar o primeiro aluguel. Isso mesmo que eu não tenha assinado nem pago nada ainda pra ela. O pior é que ela nem estava em Lausanne. Ela estava na Itália, então eu não tinha acesso ao apartamento. Enfim, foi uma longa história porque cada pessoa que eu encaminhava pra ela era rejeitada. Até que um dia, semana passada, ela achou outra pessoa. Eu me meto em cada uma!
Essa nova casa de estudante é mais legal que a anterior. Somos somente 44 pessoas, então o ambiente é mais familiar. Ontem tivemos uma janta em conjunto com direito a pizza e lasanha. O problema é que não consigo interagir muito por causa do francês. Todos falam francês desde sempre, e o meu é bem básico ainda. Encontrei uma brasileiro de São Paulo por aqui também, a Pamela, e o um português, Ricardo, então eu posso me refugiar com eles.
Outra coisa que eu tenho que ficar ligada é que estão sumindo coisas do nosso apartamento, cuja porta sempre fica aberta como a de todos os outros. Sumiu minha forma de pizza, minha tábua de cortar legumes e 3 das nossas toalhas de cozinha. Uma coisa atrás da outra. E os meus colegas de quarto ainda insistem em não trancar a porta. Que gente cabeça-dura, vou te contar. Aliás, eu sou a pessoa mais velha da casa. A maioria do pessoal nasceu em 1994-1995. Vamos ver como vai ser.
Também acho que os meninos do meu apartamento não são muito espertos. Nós somos 4 pessoas, 2 meninos e 2 meninas, e temos 2 banheiros. Eu cheguei primeiro no apartamento então me instalei no banheiro que tinha um pato roxo gigante colado na parede (presumi que fosse das meninas), coloquei tolhas rosas por tudo e uma cortinha de chuveiro cheia de peixinhos. A outra menina começou a dividir o banheiro comigo em seguida. Os meninas chegaram mais tarde e, pra minha surpresa, eles também começaram a usar o nosso banheiro porque é mais perto do quarto de um deles. O que eu faço numa situação dessas? Será que se eu mudar minhas coisas pro outro banheiro eles vão se mudar atrás? Será um efeito atrativo da cortina de peixinhos? Ou serão as toalhas rosas que não deixam óbvio que é um banheiro de meninas? Ou será que todo mundo gosta de usar o mesmo banheiro mesmo e fazer fila pra tomar banho de manhã? Olha, esse tipo de coisa está acima do meu entendimento sobre o comportamento humano.
No laboratório, também teve vários momentos difíceis. 2 meses. DOIS MESES! Esse foi o tempo que levou pra eu consegui clonar um gene num plasmídio que tinha. Foi um inferno. O mapa do plasmídeo estava errado e tudo que podia dar errado, deu. Se tinha 1% de change de dar errado, certo que deu errado. Foram 12 estratégias ("em grego strateegia, em latim strategi, em francês stratégie... Os senhores estão anotando?" ), mais de 900 testes, 18 enzimas diferentes, 60 placas de meio de cultura, 4 finais de semanas inteiros perdidos. Esse foi o tamanho do meu desespero. Até que ontem eu me aborreci com a porcaria do plasmídeo e mandei 40 clones pro sequenciamento (com autorização do chefe, já que isso custou 1200 francos) e um, somente UM maldito estava correto. Mas era um que eu precisava. ^-^ Agora eu posso começar a clonar outra coisa, segundo o Eric (não preciso dizer que eu queria jogar uma proveta na cabeça dele). Mas não foi nesse sentido que as coisas desandaram. Minhas células não queriam ficar verdes de jeito nenhum (e ainda não querem) e estou tendo uma baita dificuldade pra produzir alguns fragmentos de DNA por PCR. Parece que coisas ruins vêm em bandos. Espero que essa fase esteja passando.
De resto, o verão durou pouco aqui em Lausanne. Nem é outono ainda e está fazendo 6°C de manhã. Já botei meus casacos de neve pra fora do armário, já que a branquinha deve aparecer em 3 ou 4 semanas. Que saudade do verão brasileiro!
Por outro lado, estou feliz que o verão está terminando. Foi um momento muito estressante pra mim. Meus finais de semana estavam divididos entre o laboratório e aventuras enlouquecidas com a Priscilla. Não estou reclamando das nossa aventuras, foram ótimas, mas ao mesmo tempo eu tinha que procurar apartamento e descansar de vez em quando. Pra piorar, todos os meus outros amigos estavam de férias fora de Lausanne, então eu fiquei muito sozinha nesse período também, sem ter com quem conversar sobre coisas mundanas e pra reclamar e rir de fatos aleatórios da vida. Portanto, que essa semana, que inaugura meu segundo ano suíço, possa ser o começo de uma nova (boa) fase da minha vida em todos os sentidos.
Para aqueles que também estão começando o semestre, mando meus melhores votos!
Beijos!
Pati
PS: faltam 88 dias pra eu ir pra casa! :)
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Como reconhecer um Bom Cientista
Cientistas existem, e muitos. Talvez até demais. Tem muita gente fazendo a mesma coisa. Tem muita gente fazendo errado. Tem muita gente fazendo pelos motivos errados. Tem muita gente fazendo por obrigação. Tem pouca gente fazendo por paixão.
Qualquer um que tenha uma experiência razoável em ciência certamente já se deparou com cientistas muito bons e com cientistas muito ruins. É relativamente fácil reconhecer um bom cientista. Está no jeito com que ele faz ciência.
Aí vão algumas observações que eu fiz durante nesses últimos anos. Claro que sempre haverá exceções à regra, portanto fiquem à vontade pra discordar. :)
- Um bom cientista é apaixonado pela sua curiosidade. Ele não é somente curioso, ele adora ser curioso e é essa obsessão pela busca da resposta que faz com que ele trabalhe, invente e descubra.
-O modo com que um cientista pipeta e trabalha na cultura de células pode dizer muito sobre ele. Bons cientistas são cuidadosos, medem seus movimentos inconscientemente, prestam muita atenção aos detalhes, misturam soluções muito mais do que o necessário, buscam a perfeição em cada passo do caminho. A parte do experimento que estiver no seu controle vai sair o mais próximo possível do impecável.
- Um bom cientista se interessa por áreas que não estão diretamente relacionada ao seu trabalho. Ele pode trabalhar com neurociências, ler um livro sobre imunologia, assistir à uma palestra de nanotecnologia e uma conferência sobre biomateriais. Conhecer outras áreas e outras possibilidades lhe dá ideias que podem se aplicar ao seu trabalho agora ou no futuro. Nunca subestime o poder de uma palestra cujo título você não entende.
- Pra um bom cientista, os fins não justificam os meios. Mesmo que os resultados sejam lindos e maravilhosos, se o modo de realizar os experimentos, o protocolo, os controles, os tempos, as temperaturas e as condições de trabalho não forem ótimas durante a realização dos experimentos, o experimento deve ser repetido. Um bom cientista percebe os erros experimentais antes de começar o experimento.
- Um bom cientista é organizado: sua bancada, sua mesa, seu computador, sua vida. Isso não quer dizer que ele vai passar a limpo seu caderno todo santo dia, mas pelo menos 1 vez por semana ele vai fazer um levantamento do que fez ou vai fazer. Planejamento a curto (dias) e longo (semanas) prazo também é uma característica marcante, principalmente se os experimentos são complexos.
- Um bom cientista dá crédito às pessoas que contribuíram para o seu trabalho. Não falo somente na hora da publicação. Pode ser numa palestra, numa conversa informal ou mesmo em algo tão trivial como um "lab meeting".
- Um bom cientista ensina o que sabe. Essa mania de não ensinar uma técnica "exclusiva" do seu projeto porque "fui eu que padronizei" ou qualquer desculpa do gênero, é sinal de fraqueza e insegurança. Um cientista de verdade gosta de ensinar e fica feliz quando alguém mais vai poder usar "sua" técnica. Ele quer que todos cresçam juntos e fica genuinamente feliz se um colega publicar um trabalho. Esse negócio de inveja não rola. "Focus on your own work. The rest shall be left behind." - P. Kaldis.
- Um bom cientista duvida de tudo. Ele pode até chegar de duvidar de si mesmo. Nunca vou me esquecer de uma conversa que eu tive com meu supervisor Kasim depois que nosso experimento deu certo pela primeira vez:
-Kasim: Então, agora que sabemos que X interage com Y, o que fazemos?
-Eu: Partimos pro próximo experimento?
-Kasim: Não. Nós fazemos de tudo pra provar que X não interage com Y. Se falharmos, aí sim seguimos em frente.
- Um bom cientista nunca para de aprender. Ele lê, participa de cursos, palestras, seminários e até mini-cursos online. Quanto mais você aprende, mais percebe o quão ignorante você é. E isso tem a ver com a próxima observação:
- Um bom cientista pratica a humildade. Ele sabe que tem muito o que aprender e que pode aprender tanto com um laureado com o Prêmio Nobel quanto com o técnico e com o aluno de iniciação científica do laboratório.
- Um bom cientista assume seus erros, não importa o quão idiotas eles sejam. Ele sabe que colocar a culpa nos outros não leva a nada, muito menos a aperfeiçoamento profissional. Todo mundo erra.
-Criatividade! Ideias absurdas, curiosidade, noites insones com a cabeça a mil. Ainda não descobriram como a mente de um cientista funciona, mas deve ser uma bagunça. A diferença é que o bom cientista geralmente anota suas ideias ou coloca-as em prática assim que possível. Hoje, por exemplo, eu e Ben, o aluno de verão do laboratório, fizemos uns experimentos muito loucos com uma garrafa de coca-cola. Por quê? Porque deu na telha. A gente teve uma ideia legal e colocou-a em prática, pra desespero dos nossos pos-docs. Resultado: aprendemos várias coisas (principalmente coisas que ninguém deveria repetir), bagunçamos o laboratório todo e tomamos uma coca no pátio depois do expediente. Foi ótimo!
-Um bom cientista toma iniciativa. Seja pra colocar seus experimentos em prática, seja pra ajudar um colega, seja pra organizar algo no lab.
- Um bom cientista não faz pela publicação. Claro que publicar faz parte, mas isso deve ser uma consequência da busca pelo conhecimento, não sua principal motivação.
- Um bom cientista não tem medo de ser criticado. Pelo contrário, ele busca a opinião de outras pessoas, mesmo que elas sejam negativas, pra aperfeiçoar seu próprio trabalho.
- Um bom cientista não desiste nunca (só se acabar o dinheiro ou o orientador cortar o barato). E quando uma pergunta na sua cabeça for respondida, outras 10 surgirão.
- Um bom cientista não é cientista 100% do tempo. Ele arranja tempo pra si mesmo, pra sua família e pra fazer as coisas que gosta FORA do laboratório.
- Na minha opinião, não existe uma correlação direta entre a qualidade de um cientista ...
... e o uso de jaleco.
... e o consumo de cafeína.
... e o número de horas no laboratório.
... e o número de papers publicados.
Be the change you wanna see in the world.
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