É isso mesmo! Essa quinta-feira (ontem) foi, por assim dizer, chocante. Foi assim:
Há algum tempo eu venho tido períodos de anemia e/ou falta de ferro no meu corpo. Eu costumava ser doadora de sangue, mas depois de períodos de muito estresse, falta de atividade física e má alimentação (o quilo da carne aqui custa o equivalente a R$150), meus níveis de ferritina e de hemoglobina sempre baixam um pouco. No final do ano passado, eu fiz um check-up anual e minha hemoglobina estava 10,6 mg/dL (normal de 12 a 15) e ferritina 29 ng/mL (normal para a população geral é de 30 a 300, mas para minha idade era esperado acima de 60).
Eu já tinha visitado uma hematologista que tinha me dado um tratamento temporário para quando esse tipo de coisa acontecesse. Portanto, comecei a tomar suplemente de ferro novamente (3x100 mg ao dia). Isso foi em dezembro. No final de março, medi minha hemoglobina na EPFL e estava 14,8 mg/dl. Melhor resultado da minha vida! Fiquei até com medo de ter superdosagem de ferro! Por causa disso, eu parei com o tratamento (na verdade, diminuí para 300 mg por semana em vez de ao dia). Mas eu não tinha me ligado que os níveis de hemoglobina não refletem a realidade atual dos níveis de ferro/ferritina. Deficiência de ferro por levar de 3 a 6 meses para aparecer no hemograma.
Enfim. O tempo passou e 3 semanas atrás eu peguei uma virose gastro-intestinal braba. Depois de 5 dias vomitando, resolvi ir ao médico. Minha médica pediu alguns exames de sangue e resolvemos checar também minha ferritina, mesmo que minha hemoglobina estivesse quase normal naquele dia (11,5 mg/dL). Eis que meu nível de ferritina estava 4 ng/mL. A médica me ligou no trabalho pra falar comigo e perguntar se eu estava bem e me pediu pra passar no consultório dela. Níveis de ferritina abaixo de 18 ng/mL são considerados "perigosamente baixos" e com níveis abaixo de 11 as pessoas geralmente se sentem muito cansadas. Eu me sentia extremamente cansada, sim, o tempo todo. Minhas pernas doem bastante, fico com falta de ar ao subir mesmo que um lance de escada, depois de caminhar 10 minutos de casa para o laboratório eu preciso sentar e respirar por 15 minutos pra me recuperar. Mas eu nunca pensei que estivesse com deficiência de ferro porque cansaço e desânimo são sintomas clássicos de depressão, o que eu sabia que tinha. Depois de um tempo assim, você se acostuma e para de prestar atenção a quão cansado você está. Em alguns meses isso vira o seu novo "normal" e eu nunca pensei que isso pudesse não estar relacionado à minha depressão.
A notícia veio com um choque (níveis tão baixos de ferro podem causar parada cardíaca) e alívio ao mesmo tempo, já que era um problema para o qual há solução e não está psicologicamente ligado à depressão. \o/
O fato de eu estar "tão bem" com um nível de ferro tão baixo se explica pelo fato de que essa baixa foi gradual e eu me adaptei a ela, aceitando-a como um sintoma da depressão. Outro ponto foi que minha hemoglobina não estava tão baixa, provavelmente porque eu comecei a correr no início do ano (isso também explica porque eu não consigo correr muito e só consigo correr 10 km em velocidade "lesma").
As soluções seriam:
1. suplementação oral de ferro: 3x300 mg ao dia, o triplo do que eu tomava antes. Isso não me deixou muito animada porque com 3x100 eu já tenho diversos efeitos colaterais, principalmente gastrointestinais, com 900 mg ao dia eu vou passar mal, certamente. Outro "porém" é que meu nível de ferro vai voltar ao normal somente em 12 a 15 semanas. É muito tempo! Eu estou louca pra poder correr, ter energia pra trabalhar, estudar, etc.
2. Infusão de ferro: é dado 1 grama de ferro por via intravenosa, direto na corrente sanguínea. A infusão leva 40 minutos e os níveis de ferritina voltam ao normal em 2 a 5 dias. O único efeito colateral é dor de cabeça no dia seguinte à infusão. É um preço que estava disposta a pagar pra me sentir melhor, então foi isso que eu escolhi.
No dia da infusão foi tudo bem. Cheguei na clínica, mediram meus sinais vitais e colocaram um cateter no meu braço. Tudo ok. A infusão começou e eu não senti nada. A enfermeira perguntou se estava tudo bem e eu disse que sim. Ela então falou que ia chegar meus sinais vitais a cada 5 minutos e que só ia na sala ao lado descartar os materiais usados para colocação do cateter. Ela saiu e estava tudo bem, eu estava até contente que ia me sentir melhor e com mais energia logo.
Depois de uns 2 ou 3 minutos, algumas coisas estranhas chamaram minha atenção. Primeiro, minha garganta ficou um gelada e eu até brinquei comigo mesma "só falta eu ser alérgica a essa coisa XD". 10 segundos depois meu pulmão ficou pesado e comecei a ver algo que parecia poeira nos meus óculos, como se tivesse poeira caindo do teto ou algo assim. Irracionalmente, tentei afastar a poeira. Como não deu certo, reconheci que isso era falta de oxigênio no meu cérebro. Tentei respirar fundo e não consegui, então usei um último fôlego para gritar "Socorro!". Senti meu rosto começar a inchar, minha cabeça caiu para o lado e eu desmaiei.
Eu fiquei meio consciente em alguns momentos. Ouvia alguém chamar meu nome e sentia que estavam mexendo em mim. Pra mim, pareceram somente alguns poucos segundos entre meu desmaio e eu recobrar a consciência, mas foram na verdade entre 30 e 40 minutos. A primeira coisa que percebi quando acordei foi que estava com oxigênio e que alguém segurava minha cabeça para o lado, caso eu vomitasse, talvez. Depois eu vi que tinham tirado minha camiseta, eu estava com um aparelho de pressão em um braço, oxímetro de dedo no outro (ouvi alguém dizer que a saturação de oxigênio tinha subido para 84%) e que meu peito estava com alguns eletrodos de eletrocardiograma. Quando eu abri os olhos, havia 6 pessoas em volta de mim (2 médicos e 4 enfermeiras), auscultando minha respiração, checando minha língua, garganta, etc. Pelo que consegui entender, minhas orelhas e meus olhos estavam super vermelhos. Eu podia sentir me rosto queimando, meus lábios inchados e todo meu corpo exausto. Eu só queria dormir naquele momento, estava super cansada, mas eles continuavam falando comigo e pedindo pra eu ficar com os olhos abertos.
Pouco a pouco fui melhorando. Em mais ou menos 20 minutos depois que eu acordei já estava bem melhor. Meu resto, orelhas, olhos e lábios tinham voltado ao normal, minha saturação de oxigênio estava 100% e minha pressão subiu para o seu normal (106/68, 82 bpm). Os únicos sinais que eu ainda tinha eram a visão meio bagunçada, muita irritação na garganta e dor de cabeça leve, além da exaustão. Fiquei na clínica por mais umas 2h, até eu estar 100% de novo. Aí me deram suquinho com açúcar (já eram quase 5h da tarde e eu só tinha almoçado) e me liberaram.
O lado bom foi que eu sobrevivi. Choque anafiláticos são letais se não tratados em poucos minutos. A equipe foi muito rápida e eficiente ao tomar conta de mim. O lado ruim é que continuo exausta, não só pelo choque de ontem, mas também pela falta de ferro, problema original que ainda não foi resolvido. ¬¬
Segunda-feira tenho consulta com minha médica de novo pra ver o que vamos fazer. Mando notícias!
Ah, para os curiosos de plantão, aí em baixo tem um gráfico que explica com o choque anafilático funciona: uma célula chamada mastócito libera histamina, que causa várias reações no corpo todo e causam queda de pressão arterial, dificuldade para respirar, edema/inchaço, vermelhidão, lacrimação, etc.
Pelo menos eu não tenho alergia a água (1 em cada 23 milhões de pessoas) ou a anti-alérgicos. Isso sim seria ruim. Confira as alergias mais bizarras do mundo nesse link.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
terça-feira, 13 de maio de 2014
Uma Democracia de Verdade
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| Foto de uma votação direta local realizada em Appenzeller, em 2011. |
Semana passada um grupo de estudantes da EPFL foi convidado a fazer uma visita ao parlamento suíço, que fica em Berna, a capital.
Chegamos lá e fomos assistir às discussões e à apresentação das opiniões de diversos partidos políticos. O tema em questão naquele dia era a lei sobre os impostos para pessoas casadas. Na Suíça, se você casa, paga mais imposto do que se for solteiro, mas esses impostos baixam de novo se você tiver filhos. Foi um jeito de forçar a população a ter filhos que deu bem errado: as pessoas começaram a ter filhos sem casar. Por isso, não faz mais sentido que os impostos sejam mais altos para pessoas casadas. Os parlamentares estavam tentando mudar isso. Eu não entendi toda a discussão porque cada parlamentar tem o direito de se pronunciar (em somente 5 minutos) na sua língua materna (se oficial da Suíça). Então tinha gente falando em alemão, italiano e francês. Na real não teria problema porque a gente podia trazer um fone de ouvido e engatar na poltrona para ouvir a tradução de tudo ao vivo.
Depois de mais ou menos uma hora de discussão, tudo filmado e transmitido ao vivo pela TV, era hora da votação. De repente, o parlamento ficou lotado. Absolutamente todos os parlamentares compareceram para a votação. Eles não precisam estar lá quando os partidos apresentam seus argumentos, já que isso é mais uma apresentação para o público e para a imprensa: os debates reais acontecem em reuniões fechadas e cada partido participa enviando os parlamentares que são especialistas sobre o assunto da reunião. No final das reuniões, os parlamentares que entendem daquele assunto enviam uma recomendação de voto para aqueles que não participaram da reunião ou que não entendem bulhufas do assunto em questão.
Na hora da votação, o presidente da câmara manda uma mensagem para os "pagers" dos parlamentares que estão em seus gabinetes ou em reuniões. Todos param o que estão fazendo e reúnem-se para votar. Os votos são feitos em um botão na mesa de cada parlamentar. O voto é aberto e o público vê no que cada parlamentar votou. Depois de 2 a 4 assuntos votados, é hora de discutir outras coisas e votar de novo. Em média, são votadas 10 propostas por dia.
Depois da votação, uma parlamentar nos recebeu e discutiu nossas preocupações em relação à politica de investimento em pesquisa e em educação superior, e em como a nova lei que limita a entrada de estrangeiros no país vai nos afetar nos próximos anos. Foi uma discussão muito interessante. Acho que vai dar tudo certo. Até porque as duas Universidades Federais da Suíça (EPFL e ETHZ) têm um sistema político próprio, paralelo ao parlamento. Ou seja, o parlamento não manda em nada dentro da EPFL ou da ETHZ. O presidente da Universidade tem tanto poder dentro da Universidade quanto o parlamento no resto da Suíça. Então, se as Universidades quiserem empregar somente estrangeiros e incentivar a imigração, o governo federal nada pode fazer para impedi-las. Bem divertido.
O parlamento tem 200 lugares. 1 para cada 40 000 habitantes. O presidente do país muda cada ano e é escolhido entre os membros do parlamento. O presidente é mais uma figura representativa, que fala com a imprensa e participa de eventos. Ninguém na Suíça sabe o nome do presidente atual.
Enquanto a Suíça tem uma democracia indireta, como o Brasil (eles elegem os parlamentares que vão votar sobre as propostas), a Suíça também tem uma democracia direta, onde o povo pode votar diretamente sobre as propostas em um referendo. Como isso acontece? Tem 3 formas:
1. Mudança drástica na constituição: a população é sempre convidada a votar diretamente nesses casos.
2. Quando a população discorda de um resultado de uma votação feita pelos parlamentares (50,000 assinaturas necessárias). Isso acontece frequentemente e aconteceu há poucos dias quanto à compra de um avião de guerra. Os parlamentares decidiram que "Sim", a população discordou, a votação virou referendo e o resultado nas urnas parece que vai ser um absoluto "Não".
3. Quando a proposta vem diretamente da população. A proposta de lei deve contar com 100,000 assinaturas online para virar referendo nacional.
A opção 2 e a 3 mostram realmente como o povo tem poder na Suíça. Eu fico pensando se o Brasil não devia ter feito um referendo sobre a Copa antes de se inscrever junto à FIFA...
Dia 18 de maio será o segundo referendo do ano. Os suíços irão votam sobre a instituição (ou não) do salário mínimo de 48,000 CHF, impedir (ou não) condenados por pedofilia de trabalharem com crianças no futuro, sobre a regulamentação da medicina de família, e sobre a aquisição do avião de guerra.
Pra votar, você recebe uma convocação em casa com as propostas a serem votadas. Você pode votar em uma urna física distribuída pela cidade no dia da votação, por correio (a convocação vem com uma carta-resposta gratuita) ou pela internet. Tudo muito prático. A votação não é obrigatória, mas entre 30% e 60% da população participa.
E quanto os parlamentares ganham?
Ao contrário do Brasil, eles não ganham uma fortuna. E, ao contrário do que corre em algumas redes sociais, eles também não trabalham de graça ou recebendo compensações. O salário de um parlamentar é entre 58,000 e 70,000 francos por ano. Só pra vocês terem uma ideia, um estudante de doutorado ganha 51,000, e um pós-doc ganha 82,000 por ano. Por isso, só entra pra política quem tem vocação pro negócio, não pra ficar rico. O custo dos salários e da manutenção do sistema político é de 13 francos por ano por habitante. Ridiculamente baixo para nós, brasileiros, não?
Claro que as coisas não são perfeitas. Os suíços ainda reclamam muito do seu sistema político, principalmente sobre a questão do idioma. Eles brincam que a política funciona porque ninguém se entende. :) Mas é um problema real. Dificilmente há um parlamentar fluente em todos os idiomas oficiais. Forçar as pessoas a falar inglês não vai rolar, eles são muito nacionalistas. Falar em alemão da Alemanha (aquele que as pessoas da parte francesa e italiana da Suíça aprendem na escola) tem o mesmo problema. E ensinar alemão suíço (falado por 65% da população) para uma pessoa adulta ou mesmo em idade escolar é impossível: só fala esse dialeto quem cresceu com pais falando em alemão suíço, realmente não existe outra forma de ensinar esse idioma. Por isso, fica a regra de que cada um fala na língua que quiser.
Quem sabe, um dia, o Brasil vai evoluir e alcançar o patamar dessa democracia que assim funciona há quase 700 anos...
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